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Elefantes explorados pelo turismo morrem de fome no Sudeste Asiático

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Reprodução/World Animal Protection/Imagem Ilustrativa

Explorados para entretenimento humano, elefantes são forçados a transportar turistas em passeios e a participar de espetáculos, para os quais costumam ser preparados através de sucessivas agressões usadas para adestrá-los. Não bastasse tamanho sofrimento, esses animais estão lidando com outra dor no Sudeste Asiático: a da fome.

Uma denúncia feita pelo biólogo e ambientalista mexicano Antonio de la Torre, em entrevista ao GLOBO, expõe o sofrimento dos elefantes durante a pandemia de coronavírus. A crise gerada pelo vírus levou a uma queda na arrecadação de recursos usados para alimentar esses animais, o que os condenou a morrer de fome.

Esse cenário desolador, segundo o ambientalista, não é restrito aos locais que exploram os elefantes para entretenimento humano, mas também aos santuários, que respeitam e protegem esses animais, mas ficaram sem recursos financeiros por conta da pandemia.

O especialista defende a conscientização como meio para por fim a exploração desses animais, conforme é possível conferir abaixo na íntegra da entrevista concedida ao GLOBO.

O uso de elefantes no Sudeste Asiático é uma das faces mais conhecidas da exploração de animais pelo turismo, inclusive sendo alvo de diversos movimentos de boicote. Como você vê esse fenômeno atualmente?

Ainda é uma prática muito comum. Somente na Tailândia, estima-se que entre dois e três mil elefantes são usados para o turismo em centros de vida selvagem. Mas acredito que os movimentos para divulgar e erradicar esse problema também foram recompensados. Um exemplo disso é que o número de turistas responsáveis e santuários de elefantes (onde eles não são montados e forçados a fazer apresentações) estão aumentando.

Também em alguns lugares esse tipo de atividade está sendo proibido. Um exemplo positivo relacionado a isso aconteceu no ano passado no Camboja, no complexo de Angkor Wat, onde anteriormente eram oferecidos passeios ao complexo através de passeios de elefante e, desde o final de 2019, esses tipos de atividades foram proibidos no interior do complexo turístico.

Isso tem um impacto muito importante, já que Angkor Wat é visitado por milhões de pessoas por ano, o que pode ajudar a aumentar a conscientização sobre esse assunto não apenas entre os turistas, mas também com operadores turísticos e empresas que se dedicam a explorar os animais. Então, no futuro, esperamos que isso nos motive a modificar práticas e padrões de consumo para evitar o abuso de animais.

Muito se fala sobre um aumento na consciência dos viajantes no mundo pós-pandemia. Você acredita nisso? Quando a Covid-19 for superada, os turistas serão mesmo mais responsáveis?

Espero que sim, mas que isso não ocorra apenas com os viajantes. Acredito que todos precisamos ser mais responsáveis e conscientes da importância de cuidar da natureza para o nosso próprio bem-estar. Penso que este é um momento em que todos deveríamos refletir sobre o impacto que nosso modo de vida e nosso relacionamento com a natureza têm.

Muito se fala atualmente sobre o impacto que o Covid-19 teve em nossas vidas e na economia mundial, mas acho que muito pouco foi levado em conta nas consequências que, por exemplo, uma catástrofe relacionada à mudança climática poderia ter. Acho que estamos no momento de reverter esses processos, mas, para que isso aconteça, é necessário o comprometimento de todos.

Falando em pandemia, como está a situação dos animais normalmente utilizados para turismo neste momento? Sem turistas visitando o Sudeste Asiático, como esses animais estão sendo mantidos?

Dada a situação atual, o fluxo de turistas diminuiu drasticamente, de modo que os santuários e locais turísticos que trabalham com elefantes não têm recursos suficientes para alimentar esses animais. Os elefantes precisam de 100 a 200 quilos de comida por dia para estar em boas condições e, como as fronteiras estão fechadas e esses centros estão fechados ao público, as condições em que os elefantes estão não são boas, e muitos desses animais estão morrendo de fome.

Alguns desses centros estão levando seus elefantes para locais próximos à floresta, onde podem se alimentar do que está disponível (pastos, arbustos, folhas de árvores, alguns frutos) ou para locais próximos a vilas onde seus tutores podem colher diferentes tipos de culturas para alimentá-los. Esta situação não está apenas afetando os centros de turismo da vida selvagem, mas também atinge santuários de elefantes, pois grande parte da renda obtida com os santuários é para manter esses elefantes em boas condições.

Como você vê o cenário do ecoturismo? É possível praticar turismo minimamente acessível (em termos de preço, por exemplo) em áreas de preservação ambiental ou santuários ecológicos, sem causar grandes prejuízos para aquele ecossistema?

Eu acho que sim. Considero que uma das alternativas mais viáveis para garantir a conservação de nossa biodiversidade é o ecoturismo. Mas isso deve ser feito com um planejamento rigoroso, cuidando para que as atividades realizadas tenham um impacto mínimo sobre os ecossistemas e garantindo que as comunidades vizinhas a esses projetos de ecoturismo tenham renda econômica com essas atividades. Com isso, poderíamos ajudar as pessoas que vivem dia após dia com a vida selvagem que queremos conservar a se envolver ativamente no processo de conservação desses e de seus habitats.

Mas também é importante ter cuidado com o que é vendido como ecoturismo. Como turista ou viajante, você deve sempre pesquisar antes de visitar esses tipos de lugares, se informar e tomar uma decisão informada sobre quais sites são consistentes com sua mensagem de conservação.

A América Latina tem potencial para ampliar seu ecoturismo, ou turismo de observação de animais?

Um exemplo da potencialidade da região é a Costa Rica, comprometida com a conservação dos recursos naturais e que desenvolveu uma indústria inteira relacionada ao ecoturismo. No entanto, acredito que pouquíssimos países se aproveitaram de toda essa riqueza que temos a esse respeito. Com uma visão diferente, poderíamos ampliar o desenvolvimento sustentável por meio do ecoturismo e, com isso, também ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem onde a nossa biodiversidade ainda é mantida.

Como avalia a situação do Brasil, em particular?

Um dos lugares que mais quero conhecer é o Pantanal. O Pantanal é um dos poucos lugares no continente americano onde você pode observar onças-pintadas na vida livre e isso permitiu que vários fazendeiros ou grandes proprietários de terras da região diversificassem suas atividades econômicas em direção ao ecoturismo e, por sua vez, conservassem onças-pintadas em toda a região, já que os lucros do ecoturismo superam em muito os animais domésticos que podem ser predados pelas onças-pintadas. Ecoturismo para ver onças-pintadas promove um ganho econômico de milhões de dólares por ano no Pantanal.

Fonte: anda.jor.br

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