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Católicos veganos repudiam instituição do Dia do Rodeio

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O grupo de católicos veganos Martinello publicou uma carta aberta em repúdio à criação do Dia do Rodeio. A data foi institucionalizada no dia 05 de dezembro e será comemorada em 4 de outubro, quando é comemorado o “Dia Mundial dos Animais” e o “Dia de São Francisco de Assis”, patrono dos animais na Igreja Católica.

Em uma entrevista exclusiva à ANDA, as representantes do grupo, Tânia Vizachri e Tânia Bezerra, explicam que o grupo se posicionou devido ao retrocesso às leis e o desserviço aos valores cristãos. “O cuidado com a criação (tudo que é vivo e criado por Deus) não é um dever apenas de franciscanos, é uma atitude cristã, como o papa Francisco enfatizou na Laudato si e vemos no livro do Gênesis o ideal que Deus criou. Estar longe de consumismo, desperdício, não matar e ter amor pelo próximo, incluindo toda a criação, é base cristã”, afirmam.

O Martinello analisa que ainda há uma distância entre o Poder Público e a sensibilização pela defesa e reconhecimento dos direitos animais. “Sinceramente, não vimos nenhum governo até agora benéfico, aliás, nem mesmo simpatizante à questão animal. No entanto, a piora da condição animal ocorreu graças à iniciativa mais do Legislativo do que o Poder Executivo, com a alteração da Constituição Federal através da emenda constitucional nº 96/2017, que incluiu o § 7º no art. 225, violando, assim, o princípio da vedação do retrocesso em matéria ambiental, ao prever uma exceção à crueldade contra os animais para práticas que o próprio STF antes considerava como cruéis“, dizem as representantes.

E completam:”Tal emenda serviu para fundamentar juridicamente a vaquejada e o rodeio como patrimônio cultural imaterial brasileiro, quando a lei nº 13.364, de 29 de novembro de 2016, aprovada pelo Congresso da legislatura passada, foi sancionada por Michel Temer. No entanto, isto conseguiu ser piorado em 17 de setembro de 2019, quando foi sancionada pelo atual presidente, uma lei alterando a lei 13.364/2016 que incluiu a prova do laço também como patrimônio cultural e conferiu ao Ministério da Agricultura uma delegação para editar regulamentos que estabeleceriam as regras de `bem-estar´ animal aplicáveis a essas atividades cruéis. E agora, com a aprovação dessa lei nº 13.922/2019, que instituiu o Dia Nacional do Rodeio, apresentando essa prática cruel como algo benéfico. Além de todas as tentativas de liberação da caça e a liberação em escala industrial de agrotóxicos que estão matando abelhas e contribuindo para prejudicar a saúde da população”.

Leia a carta aberta na íntegra abaixo:

Carta aberta do grupo Martinello em repúdio à lei que promove o Dia Nacional do Rodeio em desrespeito à data da festa litúrgica de São Francisco de Assis

“Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia.” (Romanos 8,22)

Nós, católicos e veganos do grupo Martinello, indignados com o desrespeito expressado pelas autoridades brasileiras, manifestamos, por meio desta Carta Aberta, nossa rejeição à Lei nº 13.922/2019, a qual estabelece em seu art. 2º que: “Fica instituído o Dia Nacional do Rodeio, que será comemorado todo dia 4 de outubro de cada ano”.

Este dia (04 de outubro), além de ser a data dedicada à festa litúrgica de São Francisco de Assis, santo venerado pela sua humildade e respeito pela criação, patrono dos animais e do meio ambiente, é o Dia Mundial do Animal, data escolhida em 1931 durante uma convenção de ecologistas em Florença, celebrado em vários países, com o objetivo de sensibilizar a população para a necessidade de proteger os animais e a preservação de todas as espécies e entre outros, mostrar a importância dos animais na vida das pessoas.

O Dia Nacional do Rodeio, é um ato de impiedade contrário aos ensinamentos cristãos que rejeitamos por meio desta Carta Aberta.

A criação geme e sofre à espera de sua Redenção (Rm 8, 20-22). O ser humano a quem Deus, nosso Pai, confiou o cuidado pela criação, conforme o mandamento de guardar o Jardim do Éden (Gn 2,15, conforme Carta Enc. Laudato si’, 66-67), deve agir com responsabilidade com todos os seres sencientes e vulneráveis, de modo a se abster da crueldade.

São Francisco de Assis, não apenas contemplou as maravilhas da criação divina, nas quais vislumbrava uma expressão do amor de Deus pela Humanidade, como vemos em seu “Cântico das criaturas”, mas também se opôs ao domínio e disponibilidade dos animais para si na “Regra não bulada” (capítulo 15, parágrafos 1 e 2).

Em 1567, São Pio V havia expressado o caráter iníquo, ímpio e cruel dos entretenimentos envolvendo lutas com animais, como as tauromaquias, na Bula “De salutis gregis dominici”, atividades que não teriam nada a ver com a piedade e caridade cristãs.

No Catecismo da Igreja Católica é afirmado que: “Os animais são criaturas de Deus. Deus envolve-os na sua solicitude providencial. Pelo simples fato de existirem, eles o bendizem e lhe dão glória. Por isso, os homens devem estimá-los. É de lembrar com que delicadeza os santos, como São Francisco de Assis ou São Filipe de Néri, tratavam os animais.” (Catecismo 2416).

O mesmo documento enfatiza que, ainda que o ser humano interaja com os animais para fins de trabalho e lazer (Catecismo 2417), essa relação não pode ser desvinculada do respeito pelas exigências morais, afinal o domínio sobre a criação não é tirânico (Catecismo 2415), pois como disse o Papa Francisco em sua Carta Encíclica Laudato si’: “Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada.” (Carta Enc. Laudato si’, 67). Dessa maneira, “seria errado também pensar que os outros seres vivos devam ser considerados como meros objetos submetidos ao domínio arbitrário do ser humano” (Carta Enc. Laudato si’, 82).

É moralmente injustificável a submissão dos animais a sofrimentos e outros atos cruéis para mero deleite do ser humano. Provas como a de laço, nas quais os bezerros, ao serem derrubados, correm sérios riscos de sofrer fraturas e vir a ficar tetraplégicos ou, até mesmo, morrer devido a hemorragias não são condutas que conferem dignidade ao ser humano em seu dever de responsável pela criação.

Na Carta Encíclica Laudato si’, o Papa Francisco afirma que: “Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano.” (Carta Enc. Laudato si’, 241). De fato, a criação continua mais do que nunca a gemer de dores geradas por atos cruéis que contrariam os ensinamentos de santos como São Francisco de Assis, São Vicente de Paula e São Nicolau de Tolentino.

Afinal, como bem nos lembra São Isaac, o Sírio, um coração misericordioso é aquele que “está ardendo de amor por toda a criação, pelos homens, pelos pássaros, pelas feras (…) por todas as criaturas (…) um coração que amolecido que não pode suportar ver ou aprender com os outros de qualquer sofrimento, mesmo a menor dor sendo infligida a uma criatura.”

Conclamamos, portanto, todos os irmãos e irmãs, membros da Igreja de Cristo, a sensibilizar as autoridades a revogarem esta lei.

Sobre o grupo Martinello

O grupo nasceu em fevereiro de 2018 quando três amigas se uniram para debater como o veganismo poderia ser analisado também dentro de uma ótica católica e cristã e como atrair mais pessoas para fazer parte deste movimento. O nome foi escolhido em homenagem ao cordeiro que recebia cuidados de São Francisco de Paula, santo que em vida pregava os valores de humildade e compaixão ao próximo. As ativistas explicam que o grupo tem como objetivo “esclarecer passagens bíblicas e pensar a nossa fé no que tange a criação, e estamos começando a pensar ações para propagar o chamado ao cuidado pela criação. Atualmente apenas temos um grupo de WhatsApp, o qual utilizamos para dialogar sobre a temática, mas pretendemos expandir e facilitar o encontro das pessoas”, asseveram.

Elas afirmam ainda que esperam quebrar o bloqueio que existe entre o cristianismo e o veganismo. “Começamos notando que infelizmente há muitas más compreensões entre veganismo e a fé católica. Tanto com relação aos católicos que ainda estão resistentes à proposta do cuidado pela Casa Comum, que ainda leem a questão do domínio como um ato tirânico, quanto mesmo por acadêmicos que reforçam essa leitura em seus trabalhos, mesmo quando imaginam denunciá-la, apresentando essa má interpretação como verdade ao invés de compreender a lógica do domínio como cuidado e humildade conforme o modelo que Jesus nos ensinou e o Papa Francisco vêm enfatizando, especialmente após a publicação da Laudato si“, concluem.

Se você interesse em fazer parte ou conhecer um pouco mais sobre o grupo Martinello entre em contato através do e-mail: pinteavida@hotmail.com. O grupo reúne pessoas de todo o país.

Fonte: anda.jor.br

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