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Criação de passagens de fauna podem ajudar renas, ursos e até caranguejos

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Maria Luiza Santos | Redação ANDA

Foto: Pixabay

Todo mês de abril a principal rodovia da Suécia sofre uma paralisação periódica. Centenas de renas, supervisionadas pelos pastores indígenas Sami, transitam pelo asfalto na E4 para começar a sua jornada rumo ao oeste, para as montanhas, após um inverno se empanturrando de líquen, próximo a cidade de Umea.

Já que a principal rodovia arterial da Suécia tem ficado mais movimentada, a travessia tem se tornando incrivelmente turbulenta, especialmente quando as autoridades não chegam a tempo de fechar a estrada. Muitas vezes os motoristas tentam ultrapassar as renas enquanto elas atravessam – assustando o animal e causando um longo engarrafamento, enquanto os seus proprietários Sami lutam para retomar o controle dos animais.

“Durante condições climáticas ruins, essas áreas com líquens podem ser muito importantes para as renas”, diz Per Sandstrom, um ecologista de paisagem na Universidade Sueca de Ciências da Agricultura, que trabalha como intermediário entre os Sami e as autoridades para melhorar essa travessia.

Essa semana, autoridades suecas anunciaram que irão construir uma dúzia de “renadutos” (viadutos para as renas) para ajudar a travessia e permitir os pastores de renas a alcançarem as pastagens mais facilmente.”

É esperado que a travessia permita que as renas encontrem terras de pastagem fresca enquanto aliviam-se os congestionamentos, e também ajudar alces e linces a se movimentarem pela região. Os 4.500 pastores Sami e suas 250.00 renas foram muito atingidos pela crise climática, batalhando contra incêndios em florestas durante o verão  e com a chuva congelante no inverno, que esconde o líquen abaixo de camadas impenetráveis de gelo.

“Os animais que realmente vão se beneficiar desse sistema são os mamíferos de grande porte, que realmente não foram feitos para viver em uma pequena área isolada”, diz Sandstorm, que começou a sua carreira nos EUA ajudando a criação de corredores ecológicos em Montana para ursos-pardos.

Os renodutos fazem parte de um crescente número de pontes e passagens subterrâneas para animais selvagens em todo o mundo, para ajudar a conexão entre habitats fraturados. Na península de Yucatán no México, passagens subterâneas estão sendo usadas para proteger as onças do tráfego. Marquises naturais na Amazônia peruana têm ajudado porcos-espinhos, macacos e juparás a passarem pelas tubulações de gás natural. Na Ilha do Natal, foram construídas pontes acima das rodovias para permitir que milhões de caranguejos vermelhos atravessem da floresta para as praias em seu processo anual de migração.

As pontes para animais selvagens ajudam a evitar algumas das bilhões de mortes de animais que acontecem todos os anos nas estradas ao redor do mundo e é uma forma de reagir as consequências não esperadas da infraestrutura dos humanos.

No sul da Califórnia estão sendo encontrados sinais de consanguinidade entre os pumas de Santa Mônica, devido às rodovias lotadas ao redor de Los Angeles, que isolaram as populações oferecendo pouca variabilidade genética. Para ajudar a salvar a população local de pumas da extinção, uma ponte para travessia de animais selvagens no valor de $87 milhões de dólares acima da Rodovia 101, ao norte de Los Angeles, está sendo planejada, e será a maior do mundo.

“Quando um habitat é isolado, nós podemos ter impactos individuais nos animais como não encontrar água ou comida. Nós também podemos impactar a diversidade genética da população”, diz Mark Benson, membro do time de coexistência da vida humana e animal responsável por Lake Louise, Yoho e Kootnay da instituição governamental Parks Canada.

A agência supervisionou um dos mais famosos usos de travessias animais do mundo no parque nacional de Banff, em Alberta, instalando sete viadutos e 41 passagens subterrâneas na região seccionada pela rodovia Trans-Canada. Um estudo de 2014 mostrou que cercar a estrada e instalar novas passagens para os animais selvagens tem mantido uma alta variabilidade genética em populações de ursos pardos e negros. Benson credita às passagens a grande queda no número de animais mortos ao longo da rodovia e também a redução significativa nos números de morte humanas após coalisões com os animais.

“Nós podemos voltar a 1983. Houve uma passagem subterrânea que foi construída como parte de melhorias geminadas (aumentar a largura da estada) no parque. A primeira passagem subterrânea foi construída em 1996 e a geminação da rodovia foi completada em 2016”, ele diz.

“Ela é muito efetiva em termos de permitir a vida animal se movimentar por toda a região.”

No Reino Unido, pontes para animais selvagens provavelmente farão parte da rede de recuperação natural do governo, que pretende reunir áreas com biodiversidade em um plano de 25 anos para a recuperação ambiental. Uma análise da Natural England reconheceu os benefícios para a natureza e citou o exemplo da Holanda, que está desenvolvendo uma rede de “ecodutos” para ajudar os animais a andarem pelo país.

A empresa de rodovias inglesa tem construído cada vez mais pontes para os animais selvagens como parte do plano ao redor do país, e mais ainda são planejadas para trabalhos futuros de infraestrutura. Mas alguns conservacionistas alertam que o que está sendo feito no Reino Unido não é suficiente.

“Nós estamos lamentavelmente atrás do resto do mundo. Na Europa, isso já é natural em alguns países”, diz Martin de Retuerto, diretor do fundo de conservação Hampshire & Isle of Wight Wildlife Trust.

O fundo advoga pela criação de uma ponte verde ligando a M3 ao Twyford Down, um dos esquemas rodoviários mais controversos da história inglesa, construído nos anos 90. A rodovia cortou a ligação entre o Parque Nacional de South Downs as montanhas de Saint Catherine, um reduto da era do aço e reserva natural que abriga borboletas raras e flores selvagens.

Maiores protestos contra o esquema podem ter falhado em parar a construção mas De Retuerto diz que isso marcou uma mudança na mentalidade ambiental do Reino Unido. Apenas por esse motivo, ele diz, que uma ponte verde sobre essa estrada deveria ser feita como forma de recomeçar a rede de recuperação natural.

“Isso é o melhor pior exemplo de como se fazer uma estrada. É simbólico e merece ser aquele no qual, politicamente, as ações serão centradas”, ele diz.

“Se os romenos podem construir uma para seus bisões, então nós podemos construir para as nossas borboletas.”

Fonte: anda.jor.br

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