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Durante seis meses artista realiza performance para alertar sobre extinção em massa dos animais

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Giovanna Barboza | Redação ANDA

Foto: Fraser Johnston

O Tasmanian Museum e a Art Gallery em Hobart estão cheios de pessoas esperando pelo papagaio- andorinha desaparecer.

A artista de Hobart Lucienne Rickard passou cinco semanas desenhando esboços a lápis em larga escala de um pássaro criticamente ameaçado de extinção. Pegando o seu apagador, ela diz para o público. “Se nós não fizermos algo rápido, isso é o que vai acontecer”. O apagamento, que aconteceu no domingo como parte da Mona Foma, marcou a culminação dos Estudos da Extinção Rickard. A artista passou 16 meses em TMAG, desenhando meticulosamente um arquivo de espécies perdidas: veados, lagostins, ratos e tartarugas, morcegos e bilbies (um pequeno, escavador e orelhudo marsupial). Quando eles tinham acabado, ela os esfregaria fora.

O verdadeiro papagaio está empoleirado acima do solo em sua tela pintura: o último animal a ser apagado.

Abaixo dele estão os restos de todos os desenhos em preto e branco anteriores: aparas de 25 borrachas, que removeram 187 obras de arte de lápis de grafite. Em alguns minutos, esse pássaro se tornará parte do lixo.

Rickard começa pela cauda de penas do papagaio- andorinha, limpando-o da página com deliberados traços. A criatura começa a desaparecer. Do silêncio, alguém cochicha: ‘É como testemunhar um funeral.”

“Nós temos essa ideia de que a extinção é um problema antigo. Em fato, o contrário é verdade”, contou Rickard  em entrevista ao The Guardian.

Ao longo do projeto ela tem criado e destruído um total de 38 obras de arte, todos retratando a fauna e a flora do IUCN Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, entre eles o trotão do lago Yunnan, o sapo ladrão corquim e o rato saltitante de orelhas grandes.

Os desenhos de Rickard são realistas, detalhados e arquivados – exatamente o estilo que o visitante pode esperar encontrar em um museu. Manter a arte dela acessível tornou-se um “gancho” para mergulhar as pessoas no mundo dela.

Usando o mesmo pedaço de papel por meses a fio, Rickard desenhou criaturas que não mais prosperam, à sombra de novas espécies anteriores sob cada novo esboço. Oito dessas espécies eram australianas. “Nós estamos repetindo os mesmos erros de novo e de novo, e não aprendendo”, diz ela.

A ideia para o projeto – que foi comissionado pela Organização Cultural Independente de Hobart – evoluiu a partir do interesse de Rickard em documentários da natureza. Ela começou a educar a si mesma sobre conversação, chocada com “quão desesperador realmente é”.

“Eu pensei, se eu não sei sobre isso, há um monte de outras pessoas lá fora que provavelmente não saibam também.”

Mais ressonante para ela foi o nascimento e a morte da borboleta azul xerces de Rickard. Ela tinha visto uma asa sob um microscópio do museu e achou o detalhe “alucinante”… como uma floresta ou paisagem sem fim”, diz ela ao The Guardian.

Informada pela ciência, Rickard desenhou asas com escala estimada de 113,000 – um processo de três meses que ela descreve como “tortuoso”, e que ela documentou em uma série de posts no Instagram.

“Eu estou investindo tanto nesse desenho, nessa espécie, porque eu estou ficando frustrada”, ela escreveu em um. “Há infinitos detalhes diferenciados ao nosso redor, mas nós nos tornamos acostumados em ver nós mesmos como uma parte removida do mundo natural… Eu quero abalar as pessoas, eu quero gritar, ‘Olha!’ Mas eu estou desenhando até a última escala ao invés disso’”.

Pessoas seguindo o seu progresso imploraram para ela cancelar o apagamento da borboleta: para fazer uma exceção para a borboleta que vive na página. Os seus pais aplicaram uma pressão parecida, lamentando o esforço da filha com as asas. “Havia uma atmosfera aumentada na sala quando eu apaguei, e eu quase rachei”, Rickard lembra. Foi a “picada” do apagamento que deu esse poder.

Rickard começou o projeto no TMAG em setembro de 2019, e continuou enquanto os incêndios florestais devastavam o país, impactando mais de 100 espécies australianas ameaçadas e matando ou deslocando quase 3 bilhões de animais. Ela diz que os visitantes do museu procuravam a ela em lágrimas, chorando pela perda de vida animal enquanto ela continuava a confrontar em sua página.

Apenas alguns meses depois, os lockdowns da Covid-19 pareciam retornar uma relativa paz para o mundo natural: a vida marinha floresceu em águas mais tranquilas e céus azuis foram vistos acima das cidades normalmente enevoadas com poluição. Rickard lembra desse momento como uma oportunidade: “Um bom tempo para pensar sobre a nossa relação com o meio ambiente, e tentar viver vidas diferentes”. Não demorou: a pandemia estava ameaçando a nossa própria espécie, e os nossos valores mudaram de acordo.

Rickard acredita que o maior problema é o impacto ambiental do “colonialismo e capitalismo” – particularmente na Austrália, que tem a maior taxa de extinção de mamíferos do mundo. Nos dois últimos séculos, mais de 100 espécies locais foram perdidas.

“Autrália vende a si mesma para o resto do mundo com base no turismo, e nossos incríveis espaços selvagens e vida animal. Por que nós não estamos cuidando das nossas heranças naturais?
Rickard enfrentou conversas difíceis pela página de sua rede social e presença física no TMAG. Pela primeira vez ela tem trabalhado em um espaço público, atravessando de página para performance e se aventurando na política.

“É umas das coisas mais gratificantes que eu já fiz na minha carreira artística – na minha vida- porque é um problema relevante para todo mundo”, diz ela. “Nós temos que espalhar a mensagem que nós temos um monte de espécies no limite. E se nós não fizermos algo, nós as perderemos.”

Apesar da natureza de seu trabalho, Rickard não pretende deixar os seus espectadores em desespero. Ao invés, ela nos aconselha a perguntar a nós mesmos: “Como eu posso realmente cuidar de todos os animais e plantas ao meu redor?”.

A questão não é sem esperança. Na semana do último apagamento de Rickard, a cidade de Hobart anunciou um programa de incentivo à “cientistas cidadãos” para registrar avistamentos de bandicoot-listado-oriental (uma espécie de marsupial da família Peramelidae) criticamente ameaçados de extinção. O lagostim chuva de cauda curta anteriormente declarado extinto, foi redescoberto na costa oeste. E na ilha Maria, pesquisadores esperam promover uma “população de seguro”do ameaçado Petrogale penicillata (uma espécie de marsupial da família Macropodidae.)

Quando Rickard apaga o papagaio-andorinha, ela permite que os restos do esboço permaneçam em sua página. É uma frase chamariz comovente para as espécies “nós ainda podemos fazer algo sobre”.
“Nós precisamos olhar para essas espécies criticamente ameaçadas de extinção e admitir que nós não estamos cuidando delas.”

O papagaio-andorinha é uma espécie realmente icônica da Tasmânia. Esperançosamente, nós mantemos aquele carinha por perto um pouco mais.

Fonte: anda.jor.br

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